Subidas longas, curvas e pouco descanso: prova em que ciclista morreu entre SP e MG é conhecida pela dificuldade extrema
11/05/2026
(Foto: Reprodução) Prova em que ciclista morreu entre SP e MG é conhecida pela ‘dificuldade extrema’
A morte da ciclista de ultradistância Eliana Tamietti durante uma prova do Bikingman Brasil, entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, chamou atenção para o nível de exigência física e mental das competições de ultraciclismo. Com percursos em regiões montanhosas, pedaladas que atravessam a madrugada e trechos isolados em estradas rurais, a prova é considerada por atletas e organizadores uma das mais difíceis da modalidade.
📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram
Eliana participava de uma edição do Bikingman com percurso de aproximadamente 555 quilômetros, com saída e chegada em São José dos Campos (SP), passando por cidades do interior paulista e do Sul de Minas, na região da Serra da Mantiqueira. Dados do GPS da atleta mostram que, no momento da morte, ela havia percorrido quase metade da prova: 219,8 km.
Infográfico - último percurso registrado da ciclista que morreu em prova de ultradistância.
Arte/g1
Leia também:
Morte de ciclista durante prova entre SP e MG: o que se sabe e o que falta saber
'Ela queria sempre se superar': quem era Eliana Tamietti, ciclista que morreu durante prova
Atleta mineira morre durante competição de ciclismo de ultradistância entre SP e MG
Estradas rurais e subidas da Serra da Mantiqueira
Subidas longas, curvas e pouco descanso: prova em que ciclista morreu entre SP e MG é conhecida pela dificuldade extrema
César Delong
O diretor de prova do Bikingman no Brasil, Vinícius Martins, explicou que o trajeto é planejado para evitar rodovias movimentadas e priorizar estradas secundárias, regiões turísticas e locais com menos fluxo de veículos. “Para ter a melhor vista, você precisa subir o morro e olhar de cima. Então a gente sempre escolhe regiões montanhosas, com muita subida e descida”, explicou.
Segundo ele, as estradas utilizadas são, em grande parte, rotas rurais e vias secundárias que cortam fazendas e pequenas cidades. Apesar de não serem trilhas, muitas possuem inclinações acentuadas, especialmente na Serra da Mantiqueira.
“São antigas estradas de tropeiros, abertas há muito tempo, com subidas muito inclinadas. A Mantiqueira sobe muito rápido e desce por vales, por isso é uma região tão desafiadora para os ciclistas”, disse.
Horas pedalando e pouco descanso
Alguns competidores costumam concluir percurso sem dormir durante o trajeto
César Delong
Além das subidas constantes, o desgaste físico aumenta pelas longas horas em cima da bicicleta e pela privação de sono. Segundo Vinícius Martins, parte dos atletas chega a atravessar toda a madrugada pedalando antes de fazer qualquer pausa.
Os competidores que disputam as primeiras posições costumam concluir o percurso em cerca de 24 a 28 horas, sem dormir. Já a maioria para em pousadas, cidades ou pontos de apoio distribuídos ao longo do trajeto.
“A primeira noite normalmente não é a mais preocupante, porque muitos ainda estão descansados ou motivados pela adrenalina da largada. O maior desgaste costuma aparecer na segunda noite”, afirmou.
Ele também explicou que muitos atletas preferem pedalar à noite por causa das temperaturas mais amenas e acabam dormindo durante o dia seguinte.
Prova exige autossuficiência dos atletas
Atletas precisam carregar itens obrigatórios de sobrevivência
César Delong
O organizador explicou que o Bikingman funciona em formato de autossuficiência. Isso significa que os atletas precisam carregar tudo o que irão utilizar durante o percurso, incluindo roupas extras, alimentação, ferramentas e itens de emergência.
Entre os equipamentos obrigatórios estão manta térmica, capa de chuva, iluminação, colete refletivo, roupas de frio e quantidade mínima de água. A organização afirma que os itens são fiscalizados durante a prova e atletas podem ser desclassificados caso deixem de cumprir as exigências.
“Já desclassifiquei gente por estar sem iluminação. À noite, o uso de luzes e colete refletivo é obrigatório”, contou.
Vinícius Martins também destacou que o desafio vai além do preparo físico. “O atleta precisa entender como vai se alimentar, dormir, se hidratar e reagir ao cansaço. Não é só pedalar”, afirmou.
Monitoramento e atendimento de emergência
Ciclistas utilizam rastreadores via satélite durante a competição
César Delong
Os participantes utilizam rastreadores via satélite que mostram a localização em tempo real durante toda a competição. Segundo a organização, o sistema permite acompanhar os ciclistas mesmo em áreas sem sinal de celular.
Cada equipamento possui um botão de emergência que pode ser acionado pelos atletas em caso de necessidade. A organização afirma que, nessas situações, coordena o atendimento junto aos serviços públicos de resgate e equipes médicas.
“Quando há necessidade, acionamos ambulâncias e fazemos a ponte com médicos traumatologistas”, explicou o diretor.
Segundo ele, no caso de Eliana, colegas que estavam próximos conseguiram acionar rapidamente a organização e o socorro.
Riscos da modalidade
Quedas são o principal risco enfrentado pelos atletas
César Delong
De acordo com Vinícius Martins, o principal risco enfrentado pelos participantes é o mesmo presente no ciclismo em geral: quedas. Ele afirmou que o cansaço pode potencializar acidentes, especialmente em descidas, trechos noturnos e áreas isoladas.
“O ciclismo costuma ser mais fatal quando envolve atropelamento. Nas quedas, normalmente o atleta tenta se defender e sofre fraturas”, disse.
Ainda segundo a organização, a morte de Eliana Tamietti foi a segunda registrada em 65 provas realizadas pelo Bikingman.
‘Tem muito perrengue’, relata atleta
Experiente no ultraciclismo, Vinícius Freitas, de 48 anos, já participou de dez edições do Bikingman no Brasil e no exterior, incluindo provas no Marrocos. Segundo ele, os atletas passam meses — e às vezes anos — se preparando para enfrentar esse tipo de desafio.
“Eu me preparei um ano antes da minha primeira prova. Entrei na musculação, procurei nutricionista e organizei toda a rotina para conseguir competir”, contou.
Vinícius Freitas já participou de dez edições do Bikingman
Redes sociais
Ele afirma que a modalidade exige preparo físico, resistência mental e capacidade de improviso diante dos imprevistos do percurso. “É uma viagem de bicicleta autossuficiente. Você leva roupa, comida, ferramentas, remédio e equipamentos de segurança presos na bicicleta”, explicou.
O atleta relembrou situações em que precisou enfrentar chuva forte, frio em descidas de serra e até buscar abrigo em propriedades rurais durante a madrugada.
“Tem muito perrengue. Às vezes você pega chuva forte no meio da serra, fura pneu em lugar isolado ou chega em cidade pequena de madrugada sem pousada aberta”, disse.
Em uma das provas, ele contou que precisou entrar em uma casa no interior para conseguir se proteger da chuva. “Eu estava todo molhado, sem lugar para ficar. O morador acabou me acolhendo, me deixou tomar banho e descansar”, relembrou.
Segundo ele, apesar dos desafios, os atletas não encaram a modalidade como algo improvisado nem irresponsável.
“É esporte, é cultura de viajar de bicicleta. Ninguém está ali brincando. Todo mundo treina muito e sabe o que está fazendo”, concluiu.
Estratégia, sono e resistência mental
Outro atleta experiente da modalidade, Frederico Kastrup, de 55 anos, participa do Bikingman desde as primeiras edições realizadas no Brasil e já disputou provas da categoria no Peru e na França. Segundo ele, uma das principais dificuldades do ultraciclismo é conciliar estratégia, resistência física e autossuficiência durante todo o percurso.
“A maior dificuldade que a gente enfrenta é levar os equipamentos, lidar com o sono e com essa questão de ter que planejar sem poder contar com ajuda externa. Você tem que decidir dormir ao longo das etapas, de acordo com o teu planejamento, ou até não dormir. Às vezes a gente vira noites para completar dentro do prazo ou para conseguir um tempo melhor”, disse.
Segundo ele, o ultraciclismo exige dos atletas capacidade constante de adaptação física e emocional ao longo da competição. "Essas provas têm muitos altos e baixos. Há momentos em que você está bem, depois mal, e então volta a se sentir bem novamente. É parecido com a vida: você precisa lidar com frustrações, replanejar estratégias e seguir até o objetivo final", afirmou.
Frederico Kastrup participa de competições no Brasil e no exterior
Redes sociais
Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas