Já ouviu falar em pedra 'mole'? Entenda o que é a rocha que viralizou nas redes
05/05/2026
(Foto: Reprodução) Pedra “mole”? Entenda o que é a rocha que viralizou nas redes
Pedra quebra tesoura, tesoura corta papel e papel embrulha pedra. Essas são as regras do clássico jogo de mãos "pedra, papel e tesoura" (ou Jokenpô).
Mas e se tivermos uma pedra que mais parece um papelão de tão mole? Como seriam essas regras? Será que ainda valeriam?
Brincadeiras à parte, um vídeo que viralizou nas redes sociais — e já passou de 1 milhão de visualizações — chamou atenção justamente por isso: por mostrar uma pedra tão flexível que parece dobrar na mão.
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Nas imagens, uma moradora de São Thomé das Letras (MG) segura a rocha que parece dobrar com bastante facilidade (veja no VÍDEO acima).
A cena intriga: como uma pedra, que deveria ser rígida, consegue se comportar assim?
🪨 A explicação começa pelo tipo de material. O que aparece no vídeo é um quartzito, uma rocha bastante comum na região.
Apesar da aparência “mole”, ela é, na verdade, formada por minerais duros.
❓E como ela consegue dobrar? O segredo está na forma como esses minerais se organizam por dentro da formação rochosa.
Letícia segurando a pedra "mole".
Reprodução/Instagram
🥪 Pense em um sanduíche bem fininho:
Pequenos cristais de quartzo, durinhos, formam o "miolo" da rocha;
Entre eles, folhas microscópicas de muscovita — um mineral que se forma em placas ou "folhas" superfinas, transparentes e flexíveis — se alinham todas no mesmo sentido;
🔄 Aí quando a placa é fina o bastante, essas lâminas conseguem deslizar levemente umas sobre as outras, e é esse pequeno movimento interno que dá a sensação de maleabilidade.
"Os pequenos cristais equidimensionais de quartzo são entrelaçados por muitas, pequenas e diminutas folhas de muscovita, uma mica, mineral que parece uma folhinha. Essas folhinhas imprimem à rocha a orientação em placas e sua flexibilidade", explicou ao g1 o professor Renato de Moraes, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), especialista em petrologia metamórfica.
A rocha do vídeo é, mais especificamente, um muscovita quartzito, segundo Moraes, comum em São Thomé das Letras e em cidades vizinhas, como Carrancas.
É também o mesmo material que a região vende em placas, sob o nome popular de "pedra mineira", para revestir paredes, calçadas e bordas de piscina.
O professor Gergely Szabó, também do Instituto de Geociências da USP, acrescenta um detalhe: placas grandes e finas o suficiente para mostrar o efeito de maneira tão evidente não são tão comuns assim no meio dos detritos da rocha.
Por isso, quando aparecem, viram fenômeno, exatamente como o do vídeo.
Quartzito, rocha formada ao longo de milhões de anos e conhecida pela resistência — mas que, em alguns casos, pode dar a impressão de ser mais flexível.
Siim Sepp/Wikimedia Commons
Uma rocha mais velha que os Alpes
Quem aparece no vídeo da rocha é Letícia Lima, diretora criativa que se mudou para a cidade no início deste ano.
Ela conta que encontrou a formação durante uma trilha com a namorada na última semana e que, antes disso, achava que os vídeos parecidos que via na internet eram falsos.
"Eu achava que era mentira. Aí a gente achou uma no meio do caminho. Eu falei: nossa, filma, porque eu quero mostrar para as pessoas que não é mentira", conta ao g1.
No registro, Letícia e sua namorada até levantam a hipótese da formação ser uma "pedra bebê", uma rocha ainda em formação, jovem o suficiente para ser flexível.
Depois da repercussão, contudo, ela mesma foi atrás da explicação.
"E descobri que, na verdade, essa é uma pedra bem antiga, que já passou por vários processos".
👶Os geólogos confirmam: de bebê, ela não tem nada.
Segundo Moraes, o metamorfismo que transformou a pedra mole no que ela é hoje aconteceu no chamado período Neoproterozoico, entre 600 e 630 milhões de anos atrás.
⛰️ Antes disso, o material já existia como areia depositada no fundo de um ambiente sedimentar — possivelmente há cerca de 1 bilhão de anos.
Toda a região, lembra Szabó, já foi uma cadeia de montanhas comparável aos Himalaias ou aos Alpes; o que se vê hoje na superfície são os restos dessa cordilheira sendo lentamente desgastados.
"É uma rocha muito antiga sendo consumida pelos processos geológicos de superfície no presente", explica o especialista.
Com chuva, vento e variação de temperatura, a placa que aparece no vídeo deve, no futuro, se quebrar em pedaços cada vez menores até voltar a ser areia, fechando um ciclo geológico que começou centenas de milhões de anos atrás.
Mina abandonada de quartzito em parque natural no Canadá; rocha é amplamente usada na construção por sua resistência.
Chris Goulet / Wikimedia Commons
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