Ex-faxineira retoma os estudos, vira diretora e inspira filha a ser professora em Juiz de Fora
15/10/2026
(Foto: Reprodução) Cátia e Karen Rosa dão aulas na mesma escola em Juiz de Fora
Karen Rosa/Arquivo Pessoal
A história de Cátia Rosa é marcada pela transformação por meio da educação. Ex-aluna e ex-auxiliar de serviços gerais da Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis, no bairro Furtado de Menezes, em Juiz de Fora, ela retomou os estudos, formou-se em pedagogia e chegou à direção da instituição.
A trajetória também inspirou a filha, Karen Rosa, a seguir a mesma profissão. Juntas, mãe e filha passaram a compartilhar o compromisso com a educação e com o futuro das crianças da comunidade onde cresceram.
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Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, as duas destacam a importância da escola para ampliar o acesso à educação, à cultura e a melhores condições de vida.
Faxina como oportunidade para acreditar
Cátia Rosa estudou na Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis até precisar interromper os estudos para trabalhar e ajudar na renda familiar. Anos depois, voltou à instituição, desta vez como auxiliar de serviços gerais.
Entre uma tarefa de limpeza e outra, ela se apaixonou pelo ambiente escolar e passou a sonhar em ver a filha, Karen, se tornar professora. Na época, porém, não imaginava que também seguiria esse caminho.
Mãe e filha contam história de esperança na educação
Karen Rosa/Arquivo Pessoal
Uma mudança na equipe da escola deixou Cátia desempregada. Foi então que ela decidiu retomar os estudos. Por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), conseguiu uma bolsa integral para cursar pedagogia em uma faculdade particular.
A graduação, no entanto, não foi fácil. Cátia conta que enfrentou preconceito por ser negra e bolsista, justamente em um espaço onde esperava encontrar acolhimento para aprender. A motivação para continuar veio da filha e da vontade de transformar a realidade das crianças da comunidade.
“Passei por muita coisa nessa faculdade e não desisti por causa dela [Karen]. Porque eu pensava, eu preciso mudar o futuro da minha filha e das crianças que eu vou encontrar no futuro. Porque eu via o sofrimento deles, muitos não tinham alimentos básicos dentro de casa”.
Durante a graduação, Cátia voltou a trabalhar na Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis, dessa vez como secretária. Ela permaneceu na função por cinco anos.
Mesmo com a estabilidade do emprego, a vontade de dar aulas falou mais alto. Depois de concluir a formação, decidiu tentar uma vaga como professora na própria instituição.
“Eu abri mão dessa estabilidade para tentar um contrato como professora. E consegui na mesma escola também. Cada vez me apaixonava mais pela área da educação”.
O sonho que abriu portas e escolas
Na época, a continuidade da escola estava ameaçada. Como o Estado não tinha obrigação de oferecer turmas dos anos iniciais do ensino fundamental, foi anunciado que a instituição seria fechada. Uma escola da região havia sido reformada e poderia receber os alunos.
A unidade já não oferecia aulas para o primeiro e o segundo ano do ensino fundamental. Diante da situação, a então diretora decidiu não permanecer no cargo. Foi quando uma colega incentivou Cátia a disputar a direção.
“Ela falou assim: ‘você ama tanto essa escola, já fez tanto por essa escola, por que não tenta a direção?’ No começo eu fiquei um pouco em dúvida, mas eu falei ‘senhor, se for pra felicidade das crianças da minha comunidade, que eu já amava demais, e das pessoas que eu trabalhava, que Ele me deixasse passar nessa prova de certificação e fosse eleita’”, relembra.
Cátia foi eleita e, à frente da instituição, passou a investir em iniciativas para ampliar as oportunidades oferecidas aos estudantes.
Entre as mudanças, implantou o ensino em tempo integral e atividades complementares, como hip-hop, capoeira e dança. Aos domingos, também eram organizados passeios ao teatro e a clubes.
“Eu queria retirá-los da rua, porque é um bairro muito vulnerável, onde, infelizmente, o crime impera. Meu trabalho foi em função dessas crianças e o projeto da escola foi tomando uma dimensão nacional”.
O trabalho desenvolvido na instituição ganhou destaque e contribuiu para reforçar a importância da escola para o bairro Furtado de Menezes. A história, inclusive, foi reconhecida no Encontro com Fátima Bernardes.
Mãe e filha estudaram na Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis
Karen Rosa/Arquivo Pessoal
A filha que se tornou professora
A trajetória de Cátia também influenciou as escolhas profissionais de Karen. Enquanto a mãe cursava pedagogia, a filha decidiu seguir o mesmo caminho e se formar na área.
“Eu ficava vendo ela limpando e ela sempre me relatava que o sonho dela era se tornar professora, que sempre sonhou comigo também trabalhando lá, porque além de ela trabalhar lá, nós também estudamos naquela escola”.
Depois de formada, Karen escolheu trabalhar justamente na Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis, onde atuou ao lado da mãe por 12 anos, até Cátia se aposentar, em março de 2025.
Enquanto Cátia ocupava a direção, a filha estava à frente da sala de aula. A parceria construída em família também se refletiu no trabalho dentro da escola.
“Ela era meu braço direito. Aquela pessoa sempre disposta a ajudar, que estava ali comigo o tempo todo e me passava muita segurança, foi a primeira a me dar força”, orgulha-se Cátia.
Para Karen, a experiência também foi positiva: “Minha mãe é uma pessoa muito humana. A gestão dela era muito democrática, uma gestão de amor. E isso ela conseguia passar para todos os funcionários, é o lado bom de trabalhar com uma funcionária que sempre pensa no próximo”.
“Ela sempre olhou pelos professores, ela sempre olhou pela vida, pelo íntimo dos alunos. Isso fazia com que o ambiente de trabalho ficasse agradável para todo mundo”, completoou Karen.
Educação como esperança para o futuro
Lado a lado, mãe e filha ajudaram a construir na escola um espaço de acolhimento, cuidado e oportunidades para crianças e adolescentes. Para elas, a educação tem um papel fundamental na construção de um futuro melhor, especialmente para quem vive em situação de vulnerabilidade.
“É dentro da escola que a vida acontece. É o sonho de cada criança que a gente vive. Eu sempre vi a escola, eu vejo a escola como uma esperança, para as crianças que são mais vulneráveis, para as crianças que querem um futuro melhor”, afirmou Karen.
E a transformação não fica apenas na teoria. A história de Cátia e de Karen é a prova de que apostar nos estudos pode significar esperança:
“Eu fui a primeira na minha família a ter um curso superior [...] e eu vejo que a educação é transformadora. E várias outras pessoas, serventes, serviços gerais, viram o meu exemplo e conseguiram também retomar os estudos e transformaram também, não somente a vida delas, como também na família delas”, destacou.
“É pela educação e pelo futuro das crianças que a gente vive. E eu pretendo trabalhar com amor, pensando nas crianças, pensando na educação, até quando eu puder. Até quando Deus me der vida e saúde, pretendo trabalhar olhando pros meus alunos, com o olhar fraterno, de carinho”, finalizou Karen.
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