Bairro periférico de Juiz de Fora é transformado em 'museu a céu aberto' para resgatar memória e resistência local

  • 12/07/2026
(Foto: Reprodução)
Fala Comunidade: projeto transforma bairro Dom Bosco em museu a céu aberto em Juiz de Fora As ruas, os becos, as bicas d’água e os grandes escadões do bairro Dom Bosco, em Juiz de Fora, guardam histórias e uma riqueza cultural que deram origem ao projeto 'Museu de Território Dom Bosco'. A iniciativa busca valorizar a identidade e a trajetória da comunidade. O projeto funciona como um museu vivo e sem paredes, em que as próprias galerias são formadas pela arquitetura e pela ocupação urbana da periferia. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp O museu foi resultado de um inventário coletivo feito pelos moradores em parceria com os cursos de Turismo, História e Arquitetura da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Tour pelo bairro e rotas de afeto Museu do 'Território Dom Bosco' preserva memórias e cultura do bairro em Juiz de Fora g1 Na fase atual, o grupo se dedica ao inventário do bairro, com o mapeamento das principais práticas culturais existentes no território do Dom Bosco e consideradas relevantes para a formação da identidade da população. As atividades têm avançado principalmente nas áreas conhecidas como Chapadão e Morro dos Cabritos. No primeiro tour, realizado em junho, os participantes conheceram como a comunidade se adaptou e construiu diferentes formas de ocupação e moradia, além de escadões e soluções populares de mobilidade. O trabalho também destacou a rota das águas, que inclui poços, bicas e nascentes fundamentais para a sociabilidade local. O roteiro também integrou locais de memória e afeto indicados pela própria comunidade. "A forte presença da população negra na formação histórica do bairro, as relações de sociabilidade marcadas pela busca por água e pela espiritualidade, além de processos de violência simbólica e urbana, foram elementos que permitiram identificar o potencial do território", explicou o coordenador do projeto e professor do curso de Turismo, Edwaldo Sérgio. Racismo ambiental A ocupação do bairro também serviu de base para debater o conceito de racismo ambiental, relacionado à exposição desproporcional de populações negras e de baixa renda a riscos de desastres. "Depois da Abolição, os negros libertos foram confinados aos morros íngremes, às várzeas alagadiças e aos terrenos instáveis", explicou a professora Raquel Von Randow, da Faculdade de Arquitetura da UFJF. Segundo a docente, dados demográficos de Juiz de Fora mostram que áreas de risco concentram uma população majoritariamente negra e famílias chefiadas por mulheres. "A catástrofe de fevereiro foi a expressão mais violenta dessa realidade", apontou a professora. Espiritualidade, união e empoderamento A união dos moradores foi um dos pontos destacados na iniciativa. Eliana das Neves Pereira, conhecida como Doca, ressaltou a importância do projeto para fortalecer a autoestima da comunidade. "A gente aprendeu muita coisa com os avós e a mãe da gente. Esse museu veio para guardar isso. A gente vai poder resgatar, em cada ponto da nossa comunidade, o que foi aqui, o que vai crescer, como é hoje. As crianças que eu cuido vão poder saber", afirmou a moradora. Outra liderança comunitária, Jade Dias, destacou a união entre os moradores e o clima de convivência no bairro. "Aqui nós somos uma comunidade unida. Católicos, espíritas ou evangélicos, não tem divisão. As crianças brincam na rua e as casas ficam abertas, ninguém mexe. Temos uma tranquilidade e uma paz. Apesar de ser uma comunidade carente, a gente mantém o respeito uns pelos outros", contou Jade. Jade Dias também destacou a atuação das entidades locais no desenvolvimento social e na valorização das moradoras do Dom Bosco. "A Aban completou 29 anos no Dom Bosco e promove o empoderamento das mulheres negras, incentivando-as a sair do casulo, fortalecer a autoestima, buscar atividades de produção e perder a timidez. Isso fez a gente criar um grupo em prol da comunidade", disse Jade Dias. Parcerias e próximos passos A iniciativa foi desenvolvida por pesquisadores e extensionistas do Grupo de Educação Tutorial (GET) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF, em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (Maea), o Departamento de Turismo, a Pró-Reitoria de Extensão (Proex) e moradores do bairro. A ação também recebeu apoio de redes locais, como a Aban e a associação de moradores. A parceria resultou em atividades de extensão, ensino e pesquisa que envolvem cerca de 25 pessoas, entre professores, estudantes de graduação e moradores. A metodologia foi inspirada em museus de território já consolidados no país, como o Museu da Maré e o Museu das Remoções, no Rio de Janeiro, e o Muquifu, em Belo Horizonte. Conforme o coordenador Edwaldo Sérgio, locais de relevância histórica e manifestações culturais das regiões do Chapadão e do Morro dos Cabritos já foram mapeados pela equipe. Nos próximos meses, pesquisadores e moradores devem ampliar o levantamento cultural para as regiões da Grota e do 511. LEIA TAMBÉM: Com 37 áreas vulneráveis, Juiz de Fora é a quarta cidade de MG com mais favelas e comunidades urbanas, segundo IBGE Fala Comunidade: há mais de 2 anos, cultura negra é destaque no quadro do MG1 em Juiz de Fora Participantes do projeto 'Museu de Território Dom Bosco', desenvolvido pela UFJF em parceria com moradores do bairro Museu de Território Dom Bosco/Divulgação VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes

FONTE: https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2026/07/12/bairro-periferico-de-juiz-de-fora-e-transformado-em-museu-a-ceu-aberto-para-resgatar-memoria-e-resistencia-local.ghtml


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